Vento que traz as sombras da memória no Olhar das Palavras entre o Coração e a Alma. Rodopios,Murmúrios Arrepios, Desvarios e outras Imagens
Encontramo-nos quase sempre à mesma hora
soprando palavras ao vento
no ventre da tarde
eu, roubando a sua nudez quase sem pedir licença
agradecendo a luz e as nuvens
os contornos luminosos desenhados no céu
elas, sonolentas e prenhes de seiva
à espera de caminhos,
à espera de ramos e de folhas,
à espera de ninhos
eu, à espera de dias mornos e longos
indiscreta e deslumbrada
ilumino as noites em tons laranja
sento-me no escuro à escuta de nocturnos cânticos
no silêncio das árvores as aves falam e cantam
encantam a lua que cresce para lá do horizonte
desafiando as ondas
convidando as águas
salgadas e cheias
rasgando as entranhas do mundo
rasgando as nossas entranhas com palavras, canções e avisos.
a folha despe-se só para ela
revela os caminhos da seiva
mostra sem pudor o seu interior
a intimidade dos seus fluidos
o lugar onde a vida pulsa e cintila
os segredos sem medos.
De verde vestida, a pele
transparente e bela
fina, frágil, fugaz
como o tempo
em delicados fios
tecendo estrelas
reluzindo
entrando no jardim
plic, ploc
espreita pelas frestas
desliza pelas janelas
atravessa a casa e pousa
leve e lenta no regaço dos dias curtos.
A folha fria se aconchega
enquanto a noite não chega.
Um dia quando eu for for árvore abanarei os meus troncos e dançarei despenteada em dias de ventania.
Um dia quando eu for árvore, a minha pele feita tronco, feita casca abrigará pássaros, aranhas, musgos e liquens.
Um dia quando eu for árvore vou curvar-me para a terra agradecendo a sua imensa generosidade.
Um dia quando eu for árvore serei terra também, serei solo e minhocas, húmus e composto.
Um dia quando eu for árvore contarei histórias aos humanos, continuarei sua aliada e prolongarei a minha vida muito para lá do tempo.
Um dia quando eu for árvore sairei voando por aí feita semente, feita segredo assobiando e cantando, desabrochando em férteis flores, em viçosos rebentos.
Um dia quando eu for árvore irei desbravar o mundo em verdes fecundos construindo pontes e raízes, balançando-me entre o céu e a terra, entre rios e montanhas.
Um dia quando eu for árvore não morrerei nunca mais.